sexta-feira, 16 de março de 2012

A moda do Re-Usar - Por Samantha Pinotti

Diz o ditado que nada se cria, tudo se copia. Na moda tudo se re-cria.
E se ao invés de copiarmos ou re-criarmos, usássemos a política do re-usar?
Se a moda é cíclica, por que relançar uma nova coleção a cada três meses para re-ciclar uma ideia antiga?
Segundo Gilles Lipovetsky:
 

“Estamos destinados à instabilidade crônica dos valores, aos vai-e-vens das ações e reações, ao “eterno” retorno da moda que não cessa de reciclar na modernidade as formas e valores antigos...Certamente é possível re-situar este momento em um destes ciclos periódicos da história moderna.”
 

Mas que momento é esse? O que seria reciclar na modernidade as formas e valores antigos?
Para os estilistas e a indústria têxtil reciclar tem outro sentido que não o verdadeiro da palavra. Para eles “reciclar” é fazer uma releitura, é inovar o velho. É a ação sem pensar nas consequências futuras da reação.
 

A moda do século XX foi marcada de acordo com os acontecimentos e necessidades de cada década. Podemos tomar como exemplo o New Look de Cristian Dior (1947) que associado à empresa têxtil Boussac, lançou uma linha de vestidos revolucionária, mandando uma mensagem às mulheres: “comprem mais panos”. A mulher do pós-guerra mudou e, com ela, suas roupas. As saias rodadas da década de 50, a mini-saia de Mary Quant nos anos 60 mostrando a liberdade feminina, o estilo hippie e o blue jeans dos anos 70, são alguns dos exemplos do encontro da moda com as necessidades de cada época.

E hoje, qual é a nossa necessidade? Quais os acontecimentos que podem liderar uma revolução na moda atual?
Vivemos numa época de “fast fashion” onde compramos para satisfazer nossos desejos ou fugir das frustrações pessoais. As mulheres trocam seu guarda-roupas a cada seis meses, sem pensar nas consequências deste “consumir por consumir”, simplesmente para acompanhar a moda que, como já vimos, nada mais é do que uma re-criação do que já foi voga um dia.
As ideias são quase as mesmas, todas tem um ar retrô, vintage, um pé no passado. Apesar de a tecnologia ter invadido o mundo da moda, os saudosistas andam com mais sorte, pois a releitura sempre vinga e vende mais.


Mas novamente eu me pergunto, qual é a nossa necessidade?


Buscar no consumo a resolução para todos os sofrimentos já se mostrou um conceito fracassado. Quanto mais temos, mais queremos. E é exatamente isso que o mercado da moda espera de nós. Mas já aviso: é uma cilada. Temos que aderir a uma nova politica, diferente da do “ter”, a do “ser”.
Quando vemos um vestido numa vitrine ou vestindo uma linda modelo na capa de uma revista, geramos em nós a necessidade do consumo, “eles” geraram em nós o desejo de consumo. Por alguns instantes pensamos que ter aquele vestido pode melhorar o nosso dia. Ledo engano. Os problemas ficam, o dinheiro vai embora, o mercado da moda agradece e a natureza mais uma vez chora.


Espera aí! O que a natureza tem a ver com isso?
Simples, chegamos ao ponto da necessidade da nossa década: A necessidade de consciência!
Há alguns anos os termos “ecológico” e “eco-sustentável” não estavam em pauta. Ainda não tínhamos percebido que os recursos da natureza são, na sua maioria, não renováveis e nos preocupávamos apenas em retratar a nossa realidade nas nossas roupas. Sim a moda é documento histórico, mas é também um atual problema de sustentabilidade ambiental.
 

“O problema da poluição ambiental tem caráter mundial e vem exigindo ações preventivas e corretivas para situá-lo em níveis aceitáveis, compatíveis com a preservação da qualidade de vida. Dentre as atividades industriais poluentes temos a têxtil, geradora de alta carga residual conhecida como lodo, e frequentemente emissora de efluente tratado que não atende ao parâmetro de controle ambiental cor, para o qual é exigido virtual ausência. Vários processos e produtos podem ser empregados para a remoção de cor, tais como adsorção, coagulação, técnicas biológicas e oxidação química, destacando-se a utilização de alúmen ou sais ferrosos com polieletrólitos, os quais têm o inconveniente de gerar lodos inorgânicos.” (Magali O. Bonatti, Ricardo A. Rebelo e Ivonete Barcellos)

Resumindo a indústria têxtil polui, a indústria têxtil usa recursos não renováveis e o pior de tudo: produz demais. Não vamos nem entrar nos detalhes e falar do trabalho escravo nas indústrias têxteis na China ou para onde vão todas estas roupas quando saem da moda... Mesmo com toda a tecnologia atual a moda não é mais uma necessidade de retratar a nossa época. Ela é exclusiva, para poucos que têm poder aquisitivo de renovar o closet a cada estação e depois dar um fim para o que é “velho”.


Por isso, sem mais delongas, a minha proposta para a moda atual não é re-criar, re-ciclar e comprar mais do mesmo toda estação. A minha proposta é re-usar. “Certamente é possível re-situar este momento em um destes ciclos periódicos da história moderna”.


Se a moda é cíclica e o antigo é moderno, porque não usarmos as roupas que já compramos na outra estação? Roupas que eram das nossas mães, roupas que podem ser re-usadas, compradas em ótimo estado em brechós? Porque não Re-usar? Afinal, nada esta mais na moda que ser sustentável, não é mesmo? E nada como um toque pessoal no look, com pequenas mudanças e acessórios podemos transformar o velho em novo, o antigo em retrô, o usado em vintage!


Vamos nessa? Vamos transformar a moda da nossa década na moda do re-usar, re-aproveitar?
Não estou dizendo que devemos parar de consumir moda ou quebrar o mercado de luxo. Estou falando em consumir com consciência. Pesquisar se a roupa que você esta comprando foi feita da maneira mais ecologicamente correta possível, sem deixar-se enganar por selos verdes. O capitalismo verde esta aí para nos fazer consumir e pensar que estamos consumindo bem. Então pesquise, compre com consciência e SEMPRE que puder, re-use!

 Veludo Azul - Foto Fabio Alt
 Veludo Azul - Foto Fabio Alt
 Brechó da Tia Mariza- Foto Andy Marshall
 Produção Bruna Sasso - Foto Fabio Alt
 Alunos ESPM- Foto Andy Marshal
Brechó da Tia Mariza- Foto Gustavo Spolidoro

Este ano no Donna Fashion Iguatemi (Porto Alegre), vou vestir roupas do Brechó da Mariza Melo, O famoso Brechó da Tia Mariza! Para mostrar que não é preciso gastar para estar bem vestida, é preciso RENOVAR. A moda pode SIM ser sustentável! As roupas que vou vestir vão estar a venda no Brechó da Tia Mariza logo após o evento! Mas antes disso quero todo mundo no MULTIEVENTO #NATUREZAVIVA, lá muitas peças bacanas vão estar a venda para serem usadas por muitooos anos ainda! Lembre-se, o que não serve mais para você, pode ser o que falta no guarda roupa de alguem!
BRECHÓ É TUDO DE BOM!!!
Beijos,
Sam

3 comentários:

  1. Muito bom seu artigo. Vc vai contra o mainstreem da moda que, no meu modo de entender, não é critica e se sujeita simplesmente ao mercado e aos gostos forjados no momento.
    A consciência eológica que desenvolveu na sua militância a ajudou a criar alternativas na moda, mais adequadas ao momento que a humanidade e a Terra vivem.
    Oxalá suas companheiras no ramo se inspirem em você e deem sua colaboração na salvaguarda da vida e da Mãe Terra.
    Parabens e espero que continue a escrever nesta linha Leonardo Boff

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  2. Muito bem escrito seu texto.
    O ideal seria as pessoas não se preocuparem tanto com a roupa. Dá para comprar roupas bonitinhas e que não são caras e com cuidado usar por bastante tempo. Acho também que o ideal seria as pessoas darem as roupas fora de uso a pessoas mais carentes, ao invés de vender. Mas sei também que é difícil incutir essas idéias nas pessoas.
    Abraço

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  3. Obrigada pelos comentários e visitas. Prometo publicar mais artigos próprios!
    Um grande beijo,
    Sam

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